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sábado, 22 de agosto de 2026

Etanol volta ao centro das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos

Brasil e Estados Unidos deverão retomar na próxima semana as negociações sobre as tarifas que atingem o comércio entre os dois países. Entre os assuntos que podem entrar na discussão está o acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro, um dos pontos formais de pressão do governo dos Estados Unidos.

A reunião deverá contar com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, representantes do Ministério das Relações Exteriores e integrantes do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A data ainda será definida pelas equipes dos dois governos.

A retomada foi articulada depois de uma conversa telefônica entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizada na sexta-feira (21). O contato durou uma hora e 20 minutos e, segundo o Palácio do Planalto, ocorreu de maneira cordial.

Lula contestou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a imposição das tarifas e defendeu uma solução negociada. Trump concordou com a manutenção do diálogo e sinalizou a retomada dos contatos entre as equipes comerciais.

Apesar da reabertura do canal diplomático, ainda não há acordo, suspensão das tarifas ou confirmação de quais produtos serão efetivamente discutidos na reunião.

Etanol integra investigação norte-americana

O acesso do etanol dos Estados Unidos ao mercado brasileiro está entre os temas investigados pelo USTR com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

O órgão considera que determinadas políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, desmatamento e mercado de etanol prejudicam ou restringem empresas dos Estados Unidos.

No caso do biocombustível, a principal reclamação envolve a tarifa de importação de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol proveniente de países que não possuem acordo preferencial com o Mercosul.

Os Estados Unidos defendem melhores condições para a entrada do seu etanol, predominantemente produzido a partir do milho, no mercado brasileiro.

O Brasil e as entidades representativas do setor sucroenergético contestam a acusação de tratamento comercial injusto. O argumento é que a alíquota de 18% não é direcionada especificamente aos Estados Unidos, respeita as regras da Organização Mundial do Comércio e permanece abaixo do limite de 35% consolidado pelo país na OMC.

Etanol brasileiro enfrenta tarifas nos Estados Unidos

O USTR determinou em julho a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla relação de produtos brasileiros, mantendo algumas exceções.

Durante a análise da medida, representantes ouvidos pelo órgão alertaram que, no caso do etanol brasileiro, a combinação das diferentes cobranças poderia elevar a taxação total para até 37,5%.

Produtores norte-americanos apoiaram a adoção de medidas comerciais contra o Brasil, sob a justificativa de recuperar o mercado que teria sido perdido após a retomada da tarifa brasileira de importação.

As entidades brasileiras afirmam, entretanto, que as diferenças comerciais não podem ser avaliadas apenas pela tarifa aplicada ao etanol. O setor defende que as restrições mantidas pelos Estados Unidos ao açúcar brasileiro também sejam consideradas em qualquer negociação.

Açúcar pode entrar como contrapartida

A possibilidade de vincular etanol e açúcar não é nova nas conversas entre os dois países.

Enquanto os Estados Unidos buscam ampliar o acesso do etanol de milho ao mercado brasileiro, o Brasil enfrenta limitações para vender açúcar ao mercado norte-americano. As exportações brasileiras estão sujeitas a um sistema de cotas, e os volumes enviados fora desse limite enfrentam tarifas que praticamente inviabilizam as operações.

O governo Trump também reduziu parte da cota de açúcar bruto destinada ao Brasil e condicionou uma eventual recomposição à apresentação de uma proposta comercial considerada satisfatória.

Para o setor brasileiro, qualquer concessão relacionada ao etanol norte-americano deveria ser acompanhada de maior abertura para o açúcar produzido no país. Até agora, porém, não há confirmação de que essa troca será formalmente colocada na mesa na próxima reunião.

Dois gigantes do mercado mundial

Brasil e Estados Unidos ocupam posições de liderança na produção mundial de etanol, mas possuem estruturas produtivas diferentes.

A indústria norte-americana utiliza predominantemente o milho. No Brasil, a cana-de-açúcar continua como a principal matéria-prima, embora o etanol de milho esteja crescendo rapidamente, especialmente no Centro-Oeste.

Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 253 milhões de litros de etanol para os Estados Unidos, movimentando US$ 163 milhões. No mesmo período, os embarques brasileiros de açúcar ao mercado norte-americano somaram cerca de 420 mil toneladas.

A relação comercial envolve interesses dos produtores de cana, milho, açúcar e biocombustíveis dos dois países. Por isso, mudanças tarifárias podem afetar o fluxo de importações, as exportações brasileiras e a competitividade das usinas.

Reunião abre caminho, mas não garante acordo

O contato entre Lula e Trump representa uma mudança no ambiente político e reabre a possibilidade de negociação direta. Até o momento, entretanto, os Estados Unidos não retiraram as tarifas, e o governo brasileiro não anunciou qualquer alteração na alíquota aplicada ao etanol importado.

A próxima reunião deverá mostrar se o diálogo avançará para propostas concretas ou permanecerá concentrado na apresentação das posições de cada país.

Para o setor sucroenergético, o principal ponto será saber se o Brasil aceitará discutir sua tarifa sobre o etanol e, em contrapartida, se os Estados Unidos oferecerão melhores condições para a entrada do açúcar e do próprio etanol brasileiro em seu mercado.

Fontes: Agência Brasil, USTR e Unica.

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