Ex-prefeito era radialista, estava preso e morreu após cirurgia cardíaca
O primeiro prefeito cassado da história de Campo Grande, Alcides Bernal, morreu na madrugada desta segunda-feira (13), vítima de infarto após sofrer trombose em uma artéria do coração, um dia antes de completar 61 anos.
Porém, o ex-prefeito será lembrado pelo assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, pelo qual estava preso desde o dia 24 de março deste ano. No início do mês, Bernal já havia passado por uma cirurgia cardíaca na Santa Casa. Ele retornou ao Presídio Militar, mas sofreu um infarto no fim de semana e foi levado novamente ao hospital, onde não resistiu.
Corumbaense, Alcides Bernal se formou advogado e ficou conhecido pela voz em programas de rádio em Campo Grande. O sucesso acabou levando-o para a política e, no ano de 2004, foi eleito vereador na Capital pelo PMN, com 4.772 votos. Já em 2006, chegou a lançar candidatura a deputado estadual, mas foi considerado inapto.
Em 2008, conseguiu a reeleição como o vereador mais votado de Campo Grande, com 12.294 votos. Já com mais capital político, Bernal conseguiu ascender à Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), com 26.156 votos para deputado estadual.
Bernal sonhava em ir mais longe e, em 2012, voltou às eleições para tentar ser prefeito de Campo Grande. Ele foi ao 2º turno e acabou vencendo a disputa contra Edson Giroto — que, aliás, passou em frente à cena do crime no dia em que Bernal atirou em Mazzini.
A vitória foi histórica, marcada por quebrar uma hegemonia do grupo político do então PMDB, que governava Campo Grande há 20 anos.
Dois anos após assumir a Prefeitura de Campo Grande, em 2014, Bernal tentou se eleger senador, mas acabou em terceiro lugar, com pouco mais de 204 mil votos.
Vitória meteórica e crise institucional
A passagem pela Prefeitura de Campo Grande foi marcada por polêmicas, a começar pela forte oposição na Câmara, já que Bernal foi eleito em coligação de um partido só. Na época, o sucesso foi tão grande que seu aliado próximo também foi eleito vereador, o Chocolate Jarbas.
No entanto, Bernal acabou brigando com aliados e chegou a demiti-los da Prefeitura, aumentando a crise política.
Desde os primeiros meses de governo, a gestão de Bernal foi marcada por atritos com a Câmara e dificuldades de governabilidade.
Além disso, o radialista teve que enfrentar uma severa epidemia de dengue em Campo Grande. Mais de 13,4 mil casos foram notificados apenas nos primeiros 24 dias de mandato.
Com isso, a saúde na Capital entrou em colapso e Bernal acabou decretando situação de emergência, que seria usada para a cassação dele no ano seguinte.
Cassação
Em março de 2014, com pouco mais de um ano de gestão, Bernal enfrentava o estopim da relação dele com o Legislativo. Os vereadores instauraram uma comissão processante, procedimento que antecede a cassação.
As justificativas foram que Bernal teria cometido irregularidades em contratos emergenciais firmados durante a epidemia de dengue, descumprido regras no remanejamento de verbas, em que o então prefeito teria ultrapassado o limite sem autorização da Câmara, havendo falta de transparência.
Bernal chegou a voltar ao Paço por força de uma liminar judicial, que foi derrubada horas depois. Em agosto de 2015, o TJMS confirmou a liminar e Bernal voltou à Prefeitura.
Declínio político e prisão por homicídio
Ele chegou a concorrer às eleições de 2016 para a Prefeitura, mas não conseguiu ir ao segundo turno, acabando em terceiro lugar, com 111 mil votos. Naquela ocasião, o deputado estadual Marquinhos Trad venceu a disputa contra Rose Modesto.
Depois que deixou a Prefeitura, Bernal não conseguiu voltar ao Paço em 2016. Tentou concorrer a deputado federal em 2018, mas também foi considerado inapto por estar inelegível.
Em outubro de 2025, Bernal voltou a ser destaque nos noticiários locais, mas nas manchetes criminais. A Justiça havia determinado o despejo dele de uma fazenda em Sidrolândia por falta de pagamento.
Já em 24 de março de 2026, a polícia foi acionada para uma ocorrência com tiros, em uma casa na Antônio Maria Coelho. Lá, encontraram o auditor tributário Roberto Carlos Mazzini morto a tiro.
O crime aconteceu em uma casa que pertenceu a Bernal, mas foi arrematada em um leilão por Mazzini, no ano passado. Na tarde de 24 de março, Roberto foi até lá, na presença de um chaveiro, a fim de tomar posse do imóvel, mas foi alvejado por ao menos dois tiros, que atingiram a região da costela, transfixando-a, e a dorsal da vítima. Após o crime, o ex-prefeito se entregou na delegacia de polícia.
Bernal ficou preso desde então. O ex-prefeito tentou várias vezes conseguir a liberdade na Justiça, mas todas foram negadas.
Inclusive, o primeiro infarto de Bernal foi horas após o STJ (Superior Tribunal de Justiça) negar outro pedido de liberdade.
Bernal foi pronunciado por homicídio qualificado, cometido por meio cruel e por utilizar um recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ter uma causa especial de aumento de pena devido à idade da vítima, que era superior a 60 anos, e por invasão de domicílio.
O ex-prefeito também foi pronunciado por porte ilegal de arma de fogo, nas modalidades “manter sob sua guarda” e “portar” em relação ao revólver de calibre .38 Special. A prisão preventiva de Bernal também foi mantida pelo juiz.

