Como outras que atuam no segmento de cana-de-açúcar no Brasil, empresa decidiu apostar na alternativa; planta deve entrar em operação em 2028
A Atvos entrou para o time de empresas do setor de cana-de-açúcar que decidiu apostar no milho como alternativa para produzir etanol. A empresa, que tem o fundo Mubadala Capital, de Abu Dhabi, entre seus acionistas, vai construir uma planta de etanol de milho anexa à usina de cana Santa Luzia, localizada em Nova Alvorada do Sul (MS). O CEO da Atvos, Bruno Serapião, não detalha o valor exato do investimento, mas diz que passa de R$ 1 bilhão como muitos outros investimentos do tipo.

A empresa escolheu a Santa Luzia para iniciar sua investida no etanol de milho por ser sua maior unidade sucroalcooleira, e portanto a que tem maior disponibilidade de biomassa de bagaço de cana para gerar energia e “A biomassa é o ativo mais escasso dentro dessa área de etanol de milho”, diz. Para garantir que a nova planta não consuma mais biomassa do que a oferta de cana da Santa Luzia é capaz de prover, o investimento foi dimensionado para que a energia gerada a partir do bagaço da cana da unidade atendesse toda a demanda da indústria que será construída. A nova usina terá capacidade para processar 642 mil toneladas de milho e fabricar 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG (grãos secos de destilaria) e 13 mil toneladas de óleo de milho ao ano. Além da vantagem de aproveitar a biomassa, a integração das linhas de fabricação de etanol de cana e de milho permitirá uma redução no custo total de produção da usina e uma diminuição na pegada de carbono. Serapião estima que, com a produção combinada a partir da cana e do milho, o custo de produção do etanol ao fim deve cair mais de 10%.
A localização também contou a favor da Santa Luzia. Segundo o executivo, muitos dos parceiros agrícolas que fornecem cana para a Atvos também têm plantações de milho e confinamentos de gado, o que pode garantir, por um lado, a oferta do grão para abastecer a nova planta, e por outro, a demanda para absorver a oferta de DDG. A nova oferta de etanol de milho deverá atender prioritariamente a demanda do Centro-Oeste, que vem crescendo mais rápido que na média do país, na casa dos dois dígitos. “A gente acredita que esse volume [de etanol de milho] vai ser praticamente todo tomado para o mercado regional, e a gente libera um pouco de volume [de etanol de cana] para poder exportar um pouco mais”, observa.

A Atvos trabalha com a premissa de que a gasolina alcançará de fato a mistura de 35% de etanol anidro, como prometido na Lei do Combustível do Futuro. “E com o crescimento econômico, o que vemos são os mercados regionais crescendo bastante”, afirma. No mercado externo, a Atvos já vende etanol para uso industrial no Japão, e Serapião diz que há interesse de outros países, como Indonésia, Filipinas e até a Índia, por etanol com baixa pegada de carbono. A nova planta de etanol, que deverá começar a operar em 2028, aumentará a capacidade de oferta de etanol da empresa em 10%. Todo o recurso gasto para construir a planta será oriundo do caixa da Atvos – assim como ocorre na construção de sua planta de biometano, anexa à mesma Usina Santa Luzia, e que deve ser concluída em 2027 com investimento de R$ 350 milhões. Segundo Serapião, a taxa de retorno esperada para o investimento no etanol de milho deverá ficar nos “high-teens” (termo que se refere a taxas mais próximas a 20% do que a 10%). Os investimentos em expansão e diversificação representam para a Atvos um momento distinto do vivido no início da década, quando a empresa passou por uma crise seguida de uma recuperação judicial e duas trocas de controle. O que permitiu à companhia passar a alocar capital em crescimento, e não em pagamento de dívidas ou dividendos, foi a redução e alongamento de seu passivo durante o processo de recuperação judicial. Segundo a empresa, sua alavancagem (medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda) caiu de 1,4 vez em 2023 para 1,3 vez em dezembro de 2025. De acordo com Bruno Serapião, quando o Mubadala entrou no capital da Atvos, o foco da gestão foi investir na recuperação dos canaviais, cuja produtividade havia se deteriorado nos anos anteriores.
Em três anos, a companhia manteve sua área de fornecimento para suas oito usinas em 500 mil hectares, enquanto o volume de cana processado saltou de 22 milhões de toneladas na safra 2023/24 para 27 milhões de toneladas no ciclo 2025/26. E, embora a Atvos esteja realizando investimentos industriais, pretende continuar aumentando sua produtividade até alcançar uma moagem de 30 milhões de toneladas. De acordo com Serapião, o que ajudou a melhorar o rendimento das lavouras foram investimentos em tecnologia de agricultura de precisão, conexão 4G, drones para aplicação de insumos, melhoria na gestão dos tratos culturais e novas variedades resistentes à falta de chuvas. Na safra passada, a produtividade média na empresa ficou em 73 toneladas por hectare – a média no Centro-Sul ficou em 74,4 toneladas por hectare.


