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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

“O etanol é o novo petróleo, e o Brasil é a Arábia Saudita”, diz CEO da Atvos

Executivo da segunda maior produtora de etanol do país, Bruno Serapião defende o protagonismo do Brasil nos biocombustíveis

A COP28 reuniu pessoas do mundo inteiro para discutir soluções que possam reduzir as emissões de carbono e deter as mudanças climáticas. O CEO da Atvos, Bruno Serapião, relata que foi até lá falar sobre como os biocombustíveis ajudam a resolver esse problema.

Em entrevista ao jornal O Globo, ele defende o protagonismo do Brasil nessa discussão, dada a sua posição competitiva nos combustíveis de fontes renováveis. O uso sustentável da terra por essa indústria é outro ponto que ele defende e diz ser um dos principais focos da Atvos.

“O etanol é o novo petróleo, e o Brasil é a Arábia Saudita”, diz CEO da Atvos

Atualmente liderada pelo Mubadala, fundo de Abu Dahbi, nos Emirados Árabes Unidos, a companhia nasceu como Odebrecht Agroindustrial e contrariou as estatísticas ao sair de uma complexa recuperação judicial, iniciada em 2019 na sequência da debacle da construtora na Operação Lava-Jato.

Agora, sob nova direção, a empresa quer se transformar numa “plataforma global de biocombustíveis”, define Serapião, ex-executivo do fundo Pátria que também atuou na criação da companhia de logística Hidrovias do Brasil.

No Brasil, poucas empresas conseguem sair da recuperação judicial. Qual foi o principal fator que permitiu à Atvos sair dessa condição?
A companhia é um ótimo ativo. Tem as mais novas indústrias do setor no Brasil. É uma empresa que, estruturalmente, não deveria carregar muita dívida pela volatilidade do mercado em que atua. Mas foi carregando essa dívida até o momento em que houve um estrangulamento de caixa. A recuperação judicial veio para equalizar a estrutura de capital. As empresas não saem dela porque os ativos são ruins e não geram caixa, precisam de injeção de dinheiro para consertar o negócio. Não é o caso da Atvos.

Como está a dívida atualmente? E qual é o acionista de referência?
A dívida era de R$ 12 bilhões quando a empresa entrou em recuperação judicial, em 2019, e está atualmente em R$ 6 bilhões. Parte dessa dívida foi pré-paga e parte comprada pelo fundo Mubadala e outros players. Parte foi convertida em uma debênture (título de crédito) para ser resgatada quando houver liquidez desse equity. Hoje, o Mubadala tem 31,5% da empresa e é o acionista de referência, embora não tenha o controle.

O fundo se comprometeu a aportar R$ 500 milhões na empresa. Como serão usados os recursos?
Todos os aportes já foram feitos e a companhia é geradora de caixa. Então, este ano, estamos investindo R$ 1,5 bilhão em ampliação e reforma dos canaviais para ter mais produtividade. No ano passado, moemos 22 milhões de toneladas de cana, este ano serão 27 milhões e, em 2024, estamos olhando algo entre 28 milhões e 30 milhões. Vamos buscar os 32 milhões de toneladas. Vamos investir mais de R$ 3 bilhões nos próximos três anos.

Qual é a produção de etanol da Atvos? E qual o faturamento por safra?
São 2 bilhões de litros por safra e vamos buscar 2,9 bilhões nos próximos três anos. O objetivo é tornar a empresa uma plataforma global do Mubadala de combustíveis renováveis. A Atvos fatura entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões por safra, e nosso Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) vai ficar entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões este ano. Voltamos a exportar, depois de oito anos. Foram 4 milhões de litros para Venezuela, e estamos olhando vendas para a Coreia do Sul. Queremos ser relevantes para exportação.

Como ficou a atual estrutura da Atvos?
Temos oito unidades produtivas: três em Mato Grosso do Sul; três em Goiás, uma no Mato Grosso e uma em São Paulo. São 10 mil funcionários diretos e 25 mil em torno da companhia. Estamos em 23 cidades do interior do Brasil e a população tem média salarial maior que a média dessas cidades. Além de etanol e açúar, produzimos energia com biomassa, que dá para abastecer a casa de 20 milhões de pessoas. Produzimos ainda CBios (créditos de descarbonização), que são um estímulo ao consumo de energia renovável. As distribuidoras têm que comprar para compensar a venda de gasolina. É uma forma de empurrar o mercado consumidor para mais energias renováveis.

Em quais outras áreas há investimentos?
Temos renovação de frota. Fazemos 100% de nossa colheita de forma mecanizada. Não usamos colheita manual. Temos perto de 500 mil hectares de terra que operamos e investimos para aumentar a produção de açúcar do ano passado para este ano em mais 100 mil toneladas.

Como estão as pesquisas em relação à produção de novos biocombustíveis?
Estamos começando a investir em novos projetos. O que está mais avançado é um de biogás. Queremos instalar oito biodigestores para fazer biometano nas nossas usinas. E a primeira utilização será substituir o combustível fóssil usado na frota. Depois, vamos distribuir gás para as comunidades próximas, o que significa diminuição do custo de energia no interior do Brasil.

Há planos para produzir Combustível Sustentável de Aviação (SAF)?
Sim. Queremos fazer o Brasil não exportar apenas commodities. Estamos buscando oportunidade de fazer SAF no Brasil. E vamos participar ativamente do mercado de exportação de etanol para esse fim. O etanol brasileiro é o de menor pegada de carbono no mundo. A Atvos, com outros players da indústria, está buscando posicionamento global nesse assunto.

Na transição para a eletrificação de veículos, como o Brasil poderia se posicionar? Qual poderia ser o papel do etanol brasileiro?
Acreditamos na substituição de combustíveis fósseis por combustíveis que não precisam de grandes investimentos na infraestrutura. Assim, se resolve o problema da frota instalada. A indústria faz um trabalho ruim de mostrar ao consumidor que no Brasil você consegue gastar menos com etanol e ainda melhorar o meio ambiente. O carro a etanol, desde o nascimento até sua morte, tem uma pegada de carbono menor que a do carro elétrico, por causa das baterias. Elas são feitas na China com matriz energética muito suja, com carvão.

Mas poucas montadoras falam sobre um híbrido a etanol, antes de chegar à eletrificação pura no Brasil.
Acho que o híbrido a etanol é uma oportunidade de descarbonização para o Brasil e para países de renda média ou baixa. Em São Paulo, é ótimo ter carro elétrico, mas se você rodar 200 quilômetros não consegue carregar o carro. A necessidade de infraestrutura é tão grande, que é melhor usar os postos de gasolina existentes para abastecer com etanol. O Brasil deveria exportar os carros flex para países de renda média e baixa. Mas como não temos montadoras brasileiras, as decisões são tomadas lá fora. Um movimento para garantir que o etanol seja uma commodity global é uma aliança de Brasil, EUA e Índia (que são grandes produtores). A gente enxerga o etanol como o novo petróleo e o Brasil como a Arábia Saudita desse combustível.

Como foi sua participação na COP 28?
Falei sobre o etanol brasileiro e também sobre utilização de terras de maneira sustentável, áreas em que a companhia é reconhecida globalmente. Vou ao Japão também demonstrar a capacidade de fornecimento de etanol que no Brasil tem.

Como vê as críticas ao desmatamento direcionadas ao agronegócio?
O Brasil, com a legislação ambiental que tem, é um dos países mais evoluídos para a preservação. O agronegócio brasileiro é responsável. O grande problema é que 1% faz besteira, e todo mundo paga por isso. Temos que ser muito mais duros e eficazes no combate à extração ilegal de madeira, ao desmatamento, às práticas de trabalho análogos à escravidão. Condenamos todas essas práticas.

João Sorima Neto

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