Campo Grande, Segunda-feira 17 de dezembro de 2018
13/11/2018 07h17 - Atualizado em 13/11/2018 07h17

Projeto Cozinha e Voz chega a Mato Grosso do Sul

Essa é a primeira edição voltada para mulheres vítimas de violência doméstica e egressas do sistema prisional. Curso será ministrado com a participação da chef de cozinha Paola Carosella e da atriz Elisa Lucinda

Por Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul, com dados do Tribunal de Justiça

Um recomeço". Com essas palavras e olhos marejados, D.M, 58 anos, planeja redirecionar o percurso de sua vida após quase quatro anos de encarceramento, entre os regimes aberto e semiaberto. No retorno para casa, mais uma ruptura: o casamento de 41 anos, marcado por sucessivos atos de violência de um marido que bebia muito.

Assim como D.M., outras mulheres com experiências semelhantes iniciaram nesta segunda-feira (12), em Campo Grande, a participação no projeto Cozinha e Voz, uma parceria entre o Ministério Público do Trabalho, a Organização Internacional do Trabalho, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, o Senac Gastronomia e Turismo e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). A iniciativa beneficia 10 mulheres vítimas de violência doméstica e 10 que cumprem pena no regime semiaberto.

A formação em assiste de cozinha contempla duas etapas: uma oficina em que as participantes desenvolvem a expressão oral, por meio da poesia, e um módulo com aptidões básicas do trabalho em uma cozinha de restaurante, qualificando-as para ingressarem no mercado ou apostarem no empreendedorismo.

O curso será ministrado pela chef do Senac, Míriam Arazini, com a participação de Paola Carosella, uma das juradas do Show de Talentos MasterChef Brasil. A atriz Elisa Lucinda, conhecida nacionalmente por seus trabalhos em novelas e no cinema, também estará na ação social.

"Essa é a primeira edição do Cozinha e Voz voltada para mulheres em situação de violência doméstica, em cárcere e egressas do sistema prisional. Compreender as dificuldades que elas enfrentam, seja por razões de preconceito ou impedimento de manter o vínculo trabalhista, e fornecer instrumentos para que consigam retomar a autoconfiança e reinserir no mercado é uma preocupação constante do Ministério Público do Trabalho", destacou a procuradora Valdirene Silva de Assis, representante nacional da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade).

No dia 20, Paola Carosella apresentará a proposta a empresários de Mato Grosso do Sul. Já ao final do curso, no dia 28 de novembro, haverá um evento de formatura e todas as participantes receberão certificado. A Abrasel se comprometeu em oportunizar emprego para essas mulheres em condição de exclusão do mercado formal de trabalho.

Na abertura do curso, falaram Roberta Ávalos, gerente da unidade Senac Gastronomia, o orientador técnico Roberto Escudeiro, além da professora de expressão Geovana Pires. Compuseram também a mesa a coordenadora pedagógica Fátima Torres; Anne Mendes, da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça, e uma colaboradora do Senac.

Além do curso, o Senac vai oferecer um estágio no restaurante-escola Terradaságuas para as quatro alunas com melhor desempenho durante o Cozinha e Voz.

Por onde passou

O projeto Cozinha e Voz nasceu em São Paulo, onde já foram realizadas duas edições. Na Capital paulista, o programa do curso de assistente de cozinha foi elaborado pela chef de cozinha e empresária Paola Carosella, em parceria com o Grupo Educacional Hotec. A primeira versão foi capaz de incluir 70% dos alunos no mercado de trabalho.

Em Goiás, o viés do Projeto Cozinha e Voz é a Empregabilidade Trans. Trinta e cinco homens e mulheres transexuais e travestis foram selecionados para participar da iniciativa.

No Rio de Janeiro e no Pará já foram ofertados cursos nos mesmos moldes também voltados para mulheres e homens transexuais e travestis. Já na Bahia, foi ministrada a mesma capacitação na comunidade Calabar, em Salvador, um dos bairros carentes da capital baiana, culminando na entrega de uma cozinha industrial para a realização de futuras qualificações e geração de renda.

Violência contra a mulher

O Brasil é o quinto país no mundo que mais mata mulheres. Pelo menos cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos e há registro de um feminicídio a cada duas horas.

Levantamento do Sistema de Informação de Agravos de Notificação também apontou Mato Grosso do Sul como o primeiro estado que mais registra violência contra a mulher nos atendimentos de saúde.

Em Campo Grande, mais de 32 mil mulheres já receberam atendimento na Casa da Mulher Brasileira e, atualmente, pelo menos cinco mil vivem com medidas protetivas na capital sul-mato-grossense.

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