Campo Grande, Quinta-feira 23 de maio de 2019
28/12/2015 07h21 - Atualizado em 28/12/2015 07h21

O que há de errado com a felicidade?


Por Dra. Ana Escobar

Esta pergunta desconcertante e aparentemente contraditória é de Michel Rustin e está na Introdução do livro “A Arte da Vida” de um dos pensadores contemporâneos mais importantes: Zygmunt Bauman.

Dizer que há algo “errado” com a felicidade, em pleno século XXI, com todo o avanço tecnológico, com tantas conquistas das ciências para nos garantir uma existência longeva com mais qualidade de vida, com toda a agilidade e rapidez na comunicação, com milhões de pessoas amigas de milhões de outras pessoas no mundo inteiro... parece o mesmo que perguntar: “o que há de frio no fogo?”, não é mesmo?

Pode haver algo de “errado” com a felicidade nos dias atuais?

Parece que sim. Vamos pensar.

A felicidade parece, em última instância, ser o objetivo final de nossa busca na vida. Sociedades como a nossa são movidas por homens e mulheres que incansavelmente vivem para buscar, em suma, maior felicidade. E por governantes que se elegem prometendo melhores condições de vida, o que garantiria, para todas as pessoas, como consequência imediata, mais felicidade.

Mas na vida real não é bem assim que funciona.

Estudos indicam que existe, sim, uma relação linear entre maior riqueza de uma nação e maior sensação de felicidade das pessoas até um ponto: até quando todas as necessidades básicas de vida estão supridas. A partir daí, não se observa mais esta relação linear.

Isso significa que os países mais ricos não tem, necessariamente, as pessoas mais felizes. O mesmo Rustin, em 2008, colocou que a melhora no padrão de vida observada nos EUA e Grã Bretanha NÃO se associou a uma sensação subjetiva de maior bem estar e felicidade da população. Ao contrário, observou-se até um ligeiro declínio. Japão, Alemanha e França não tem as pessoas que se consideram mais felizes. Aspectos culturais, portanto, se sobrepuseram à maior aquisição de riquezas.

Como o indivíduo se coloca neste cenário?

Muitos também acham que, individualmente, um estado de felicidade está necessariamente atrelado à conquista de maior riqueza. Por isso, se dedicam a aumentar suas riquezas, na certeza de que isso aumentará, ato contínuo, sua condição para uma vida mais feliz.

Mas nem sempre é assim que funciona. Pessoas podem estar se tornando mais ricas... mas não necessariamente mais felizes. De fato, parece que a busca incessante pela felicidade pode ser a causa de seu próprio fracasso.

Quantas pessoas trabalham incansavelmente o dia inteiro, e mal tem tempo para saber da vida dos filhos? Para visitar os pais, ou para uma conversa sincera com um amigo, não virtual, sem pressa, olho-no-olho?

Quantas pessoas que se julgam importantes e que acumularam riquezas incríveis estão por ai morrendo de medo, ou atrás das grades, sem poder aproveitar um dos fatores essenciais para a existência: a liberdade!

A felicidade real está dentro da gente, geralmente escondida em pequenos momentos, que vêm à tona quando criamos condições para isso.

Comece o ano valorizando o que, de fato, faz a vida valer a pena para você. Pode estar na prática de um esporte, no ouvir uma música, na leitura de um livro, em um olhar, em um encontro, em uma conversa gostosa...enfim... a fórmula é única para cada um. Não adianta imitar a do outro. Cada um tem a própria.

Ache seu jeito próprio e real de ser feliz. E entre em 2016 pela porta da frente!

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