Campo Grande, Terça-feira 19 de março de 2019
06/05/2014 16h42 - Atualizado em 06/05/2014 16h42

Aos 56 anos, Lilia Cabral não quer recorrer a plásticas: "Só em outra encarnação”

Dona de tipos marcantes na televisão, Lilia Cabral leva seu talento para o cinema em 'Julio Sumiu', filme que estreou no dia 17 de abril. Além disso, ela se prepara para um novo trabalho do autor Aguinaldo Silva: uma vilã na próxima novela das 9, 'Falso Brilhante'

POR BRUNO SEGADILHA; FOTOS: REVISTA QUEM

Intérprete de tipos fortes na televisão, Lilia Cabral vive mais uma mãe coragem, dessa vez no cinema. Ela é a protagonista da comédia Julio Sumiu, que estreou nos cinemas no dia 17 de abril. No filme, a atriz é Edna, dona de casa que vê sua vida desmoronar depois que um de seus filhos some de casa. Decidida a encontrar o menino, que ela acredita ter sido sequestrado pelo tráfico, a mulher se envolve com o mundo do crime para tentar salvá-lo.

Assim como sua personagem, Lilia também se define como uma pessoa obstinada. Tanto que nunca se ressentiu com o fato de ter ganhado sua primeira protagonista em novelas apenas em 2011, com a Griselda de Fina Estampa, depois de 30 anos de TV Globo. “Se eu tivesse feito as protagonistas de cara, talvez não tivesse feito os personagens legais que fiz”, diz a atriz, que se prepara para um novo trabalho do autor Aguinaldo Silva: uma vilã na próxima novela das 9, Falso Brilhante.

Lilia fala ainda sobre sua relação com a filha, Giulia, 17 anos, de seu casamento com o economista Iwan Figueiredo, com quem está há 18. “Sou muito aberta, mas imponho limites”, diz. Aos 56 anos, ela garante que não pretende recorrer a qualquer procedimento estético. “Só em outra encarnação”, brinca.

QUEM: Em Julio Sumiu, você faz uma mulher que convive com um filho usuário de drogas. Na vida real, como acha que reagiria? Lilia Cabral: Não sei. É difícil dizer, porque ninguém está livre de acontecer uma coisa dessas. Acho que é algo que depende muito de como foi sua história de vida, do que você leva para seus filhos e eles para seus netos. E você tem que saber o seu tempo de entrar e sair de cena, saber conversar, criar situações que deixem um bem-estar na sua casa, para que as pessoas não precisem procurar coisas fora. É o caminho que conheço e o que faço em casa.

QUEM: Sua personagem experimenta cocaína. Você já usou alguma droga? LC: Sou completamente careta. Já sou doida porque sou atriz. Nunca tive vontade, não bebo nem champanhe. Não gosto.

QUEM: Como é a relação com sua filha? LC: Sou muito amiga dela, mas sei que não sou a melhor amiga. Sei que tem coisas que ela não quer falar com a mãe. Sou muito aberta e franca, mas imponho limites, nada é fácil. Ela precisa disso para poder dar limites para as pessoas e para ter limites na vida. Eu e Giulia somos muito carinhosas uma com a outra, falamos absolutamente sobre tudo. Não tive isso, meu pai e minha mãe não conversavam nada sobre nada.

QUEM: Você faz 57 anos em julho. Sente algum tipo de angústia com o avanço da idade? LC: Fui mãe tarde, esqueci essa história de idade. Com 40 anos, minha filha era bebê. Fiz uma plástica interna, digamos assim. Rejuvenesci para acompanhar a Giulia. A gente tendo saúde, tudo bem. E só vejo vantagem nisso. A Giulia abençoou minha vida, meu casamento, completou minha família. É ela que, às vezes, fica pensando nisso e a gente não pode falar “Quando eu morrer”, porque ela fica com medo.

QUEM: Por falar em idade, você sempre disse ser contra intervenções estéticas. Continua firme nessa ideia? LC: Continuo. Tenho medo. Vai que acontece alguma besteira... Não vou dizer que nunca vou mexer, talvez faça uma correção mais adiante, mas não vou fazer nada que diminua minha expressão. Se Deus me ajudar, terei sempre personagens coerentes com a idade que tenho ou que pareço ter. E muitas atrizes e atores que admiro pensam como eu. Acho a Irene Ravache linda e, para mim, não tem coisa mais linda que o semblante da Eva Wilma. Se ela fez algo, fez com muita delicadeza...

QUEM: Você não faz parte do grupo de atrizes que sofrem com o HD... LC: Tenho sorte, a TV em alta definição não me maltrata. Fora isso, nunca pensei em botar peito, essas coisas. Já pensou eu com 700 mililitros de silicone? Acho que só em outra encarnação.

QUEM: Qual é sua vaidade, então? LC: Uso cremes, faço dieta, mas interferir no rosto, não. Tenho uma genética boa, meus pais envelheceram, mas não pareciam ter a idade que tinham. Minha mãe parecia mais velha pelo cabelo branco, mas tinha pele de pêssego.

QUEM: Na TV, você se prepara para mais uma personagem de Aguinaldo Silva, em Falso Brilhante, a próxima novela das 9. É uma espécie de parceria? LC: Fiquei muito feliz quando ele me convidou para a novela. Já fui muito agradecida em Fina Estampa, senti o respeito que ele tem pelo meu trabalho e eu tenho muito respeito por ele, que acho brilhante. Mas a gente não precisa necessariamente trabalhar junto sempre. A gente estabelece uma parceria mesmo quando não se faz uma novela de um autor. Não fiz essa atual novela do Manoel Carlos, mas não deixei de ser parceira dele nem um pouco, nem deixei de torcer por esse trabalho dele. Acho que a gente precisa alimentar o elo de confiança que existe. Quero trabalhar com determinado autor porque confio nele e ele em mim.

QUEM: Você ganhou sua primeira protagonista em 2011, em Fina Estampa, só depois de 30 anos na Globo. Essa demora a fez repensar sua carreira? LC: Nunca sofri por isso. Se eu tivesse feito as protagonistas de cara, talvez não tivesse feito os personagens legais que fiz. Se tivesse ganhado um papel central aos 20 anos, teria errado. As protagonistas vieram na hora em que tinham que vir, não vou lamentar porque elas não vieram antes. Se for assim, vou ficar sempre sofrendo, nunca vou estar feliz com as coisas que tenho. Além disso, sempre tive personagens ótimas como a Amorzinho, de Tieta, a Sheila, de História de Amor, a Marta, de Páginas da Vida, e tantas outras. As pessoas sempre me respeitaram me indicando para prêmios que foram importantes para mim. Eu fui indicada ao Emmy!

QUEM: A partir da indicação ao Emmy pela Marta de Páginas da Vida, sua carreira ganhou grande projeção. Algum dia imaginou tudo isso? LC: Meu começo foi difícil, sempre lutando muito. Não sei se eu ficava pensando aonde queria chegar, mas nunca pensei em abandonar a profissão e sempre lutei muito para fazer as coisas que queria. Se você me perguntasse se eu gostaria de estar onde estou, digo com franqueza: claro que queria. Mas pensar, não. Não sabia nem que existia o Emmy internacional, para mim só existia o que premiava a TV americana. Agora, estou louca para ser indicada pela terceira vez (ela também teve uma indicação pela Tereza, de Viver a Vida).

QUEM: Esse começo difícil chegou a levá-la à depressão? LC: Não. Tive depressão por causa da morte da minha mãe (em 1987). Foi o contrário. O trabalho me segurou nessa fase difícil e não me deixou cair.

QUEM: Você está casada há 18 anos. Como mantém um casamento tão longo? LC: Com cumplicidade, amor... Temos nossa filha. Além disso, a gente é muito parceiro, tento estar sempre onde ele está e vice-versa. A gente combina bastante. E o fato de eu ser mais reservada ajuda.

QUEM: É por isso que você adota uma postura mais discreta na mídia? LC: Você não me vê em festas nem verá. Já teve o tempo em que eu me expunha, já fiz viagens com revistas... Quando a Giulia era pequena, achava que era bonito de mostrar, mas foi o tempo. Não nasci para ser celebridade, não tenho essa necessidade, é uma vida curta e não quero que minha vida seja curta. Não me interessa que as pessoas saibam de tudo que eu faço. Meu jeito de olhar a profissão é muito discreto.