22.8 C
Campo Grande
sexta-feira, 9 de outubro de 2026

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal

Mudanças nas cheias do Pantanal de MS também causaram impactos na rotina da lida

As mudanças nas cheias do Pantanal e o avanço da tecnologia vêm cada vez mais alterando a dinâmica das comitivas pantaneiras. Quem tira o sustento por meio da lida relata que a tecnologia facilitou a comunicação e os negócios, mas também passou a interferir na rotina dos peões e na disponibilidade de mão de obra. Ao mesmo tempo, a redução das grandes enchentes diminui a necessidade de deslocamentos do gado entre áreas alagadas e secas, enquanto o avanço de estradas sobre corixos e áreas alagadas altera a dinâmica do transporte de gado. 

Quem conta essa história é Pantaleão Flores, de 69 anos, que mantém viva a tradição herdada do pai e administra quatro comitivas pantaneiras no interior de Mato Grosso do Sul. Há cinco décadas na lida, ele foi o único, entre 11 irmãos, a acompanhar o trabalho do patriarca, ainda criança, e viu com os próprios olhos a dinâmica no campo mudar. 

Natural de Venceslau, no interior de São Paulo, Pantaleão se mudou para Mato Grosso do Sul ainda criança, aos três anos. A família se estabeleceu primeiro em Bela Vista do Paraguai, onde permaneceu até Pantaleão completar 13 anos. O leiloeiro relata que a relação da família com o gado começou com seu avô, que era domador de cavalos e burros, função que seu pai também exercia. Posteriormente, ele deixou o ofício e passou a integrar as comitivas. Por esse motivo, a família se instalou nas terras sul-mato-grossenses, onde havia maior disponibilidade de trabalho.

Na época, as comitivas passavam longos períodos na estrada e podiam levar o gado do Pantanal até outros estados, em trajetos que incluíam a travessia do Rio Paraná de balsa. Com o passar dos anos, a logística mudou e o gado passou a ser transportado de caminhão em grande parte dos trajetos, reduzindo as longas jornadas das boiadas pelas estradas.

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal
Pantaleão mostrando imagens registradas no Pantanal. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Starlink ‘boiada afora’

Se antigamente só restava aos peões a companhia uns dos outros, além da natureza e do céu estrelado, hoje esse cenário já sofre mudanças devido ao avanço da tecnologia. Pantaleão revela que aparelhos como Starlink — dispositivo que fornece acesso à Internet em áreas remotas — já fazem parte do dia a dia da lida em dezenas de comitivas. Ele expressa que os peões chegam a se juntar para fazer uma vaquinha para adquirir o aparelho, que segue viagem com eles. Em suas comitivas, no entanto, o uso não é permitido, pois, segundo ele, atrapalha o desempenho dos funcionários. 

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal

Para Pantaleão, a tecnologia é boa, pois serve para aproximar pessoas e facilitar o trabalho. Ele utiliza como exemplo um acontecimento recente em que conseguiu localizar quatro bois desaparecidos depois que um conhecido encontrou os animais, fotografou e enviou as imagens pelo celular. A tecnologia, nesse caso, encurtou uma distância que antes poderia significar horas ou até dias de procura.

No entanto, ao mesmo tempo que a tecnologia facilita a comunicação e ajuda a resolver problemas à distância, Pantaleão acredita que o uso excessivo do aparelho tem dificultado a rotina e até a contratação de trabalhadores dispostos a permanecer nas fazendas. Em alguns casos, ele relata que a disponibilidade de internet passou a ser considerada uma condição para aceitar o trabalho. Além disso, o uso excessivo do aparelho pelos peões mudou a dinâmica da lida.

“A peãozada hoje é dedicada 100% ao celular. Se nós tivéssemos dois peões aqui, nenhum nem estaria olhando para o outro, só para o celular. Ficam até tarde jogando esse jogo do Tigrinho. Amanhecem jogando isso. Junta dois, três e compra a Starlink e carrega boiada afora. Ficou ruim pra nossa mão de obra. Hoje já estamos passando dificuldade pra ter os peões, porque, se você não tiver internet, eles não vão, mas, se você tiver, começa a atrapalhar o trabalho”, explica. 

Modernização também chegou ao comércio do gado

Por outro lado, Pantaleão afirma que a tecnologia contribuiu bastante para o negócio de compra e venda de gado. Se antes os arremates dependiam de leilões presenciais, que necessitavam de longos deslocamentos e estrutura, hoje em dia isso pode ser resolvido com celulares e internet.

Pantaleão explica que filma os animais e envia as imagens diretamente a compradores cadastrados, de acordo com o tipo de gado que cada um procura. Esse sistema reduz, ainda, custos com deslocamentos e permite que compradores acompanhem os lotes de casa.

“No leilão presencial, tinha que ficar ligando e chamando o pessoal, e o cara precisava estar disposto a ir, porque são 200 km daqui [de Campo Grande] até lá — 200 pra ir e 200 pra voltar. E, ao chegar lá, tinha que dar almoço pra eles. Hoje, eu faço leilão virtual e não tenho mais essas despesas. Hoje você chega na sua casa, você senta no sofá, vê o leilão pela televisão e compra por ali”, relata.

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal
Pantaleão em entrevista ao Jornal Midiamax. (Foto: Mateus Andrade, Jornal Midiamax)

Uso de drones no campo

Imagens feitas com drone no Pantanal mostrando as cheias, o gado passando e a riqueza ambiental do bioma fazem sucesso na internet. Embora Pantaleão concorde que a ferramenta rende boas imagens, ele expressa que não é muito efetiva para o mundo dos negócios. Segundo ele, imagens feitas com drones servem apenas para render “cliques” na internet, mas pouco ajudam na venda do gado. 

O leiloeiro explica que as imagens feitas de cima podem distorcer a percepção sobre o tamanho do animal; por isso, elas precisam ser feitas de cima para baixo, utilizando outras ferramentas como câmeras e celulares. 

“Eu estava usando o drone para filmar o gado, mas eu achei que não era muito importante. Serve mais pra beleza, porque [se for para vender] você tem que filmar o gado de baixo, você nunca pode filmar de cima. Você soltou a boiada, pode filmar, é Bonito. Mas se for filmar pra vender, não serve”, explica. 

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal
Boiada sendo conduzida pela comitiva de Pantaleão. (Foto: Jairton Costa)

Mudanças climáticas e avanços de estradas alteraram a dinâmica das comitivas

Uma das principais funções das comitivas está ligada aos períodos de cheia: quando áreas ficam alagadas, o gado precisa ser levado para locais secos, para garantir sua sobrevivência e alimentação. Além disso, as cheias são importantes para a criação de gado, pois, depois que a água baixa, o pasto se recupera e os animais encontram melhores condições de alimentação.

Em anos anteriores, quando as enchentes eram mais expressivas, a dinâmica também envolvia pontos estratégicos de embarque para o gado. Pantaleão afirma que muitos fazendeiros mantinham propriedades tanto em áreas mais altas quanto em áreas mais baixas, para garantir o deslocamento necessário durante as enchentes. No entanto, esse tipo de operação se tornou menos frequente nos últimos anos, visto que as grandes enchentes não ocorrem nas áreas onde ele trabalha há cerca de 10 anos. 

MS 49 ANOS: Entre a Starlink e o Tigrinho, tecnologia revoluciona as comitivas do Pantanal

“O Pantanal deixou de ser um pouco o Pantanal, porque fez essas estradas de rodagem, cascalhou o Pantanal, cortou no meio vários corixos e daí secou os corixos. Isso não tem nada a ver com o Pantanal. As estradas tinham que ser para carro traçado, como era antigamente, era muito mais bonito. Como fizeram muito isso hoje, deixaram aquela beleza pra trás”, opina Pantaleão. 

Embora a atividade das comitivas tenha sofrido impactos, principalmente devido às mudanças climáticas que afetam as cheias, Pantaleão estima que a atividade não deve desaparecer, mesmo que encontrar mão de obra esteja cada vez mais difícil. O motivo, segundo ele, é que ainda existem áreas onde os caminhões não conseguem chegar e o gado precisa ser conduzido a cavalo.

O que muda, segundo o leiloeiro, é a forma de se relacionar com o campo e a duração das viagens. Há deslocamentos, por exemplo, de 15 ou 30 dias, mas também casos em que os trabalhadores passam seis ou sete meses longe de casa.

Leia também

Últimas Notícias

Fale com a Rádio Olá! Selecione um contato.