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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

‘Quando quebra, a gente que paga’: motoristas relatam tratamento abusivo pelo Consórcio Guaicurus

Pressão psicológica, “prisão” trabalhista, cobranças indevidas e condições insalubres estão entre as situações relatadas por motoristas do Consórcio Guaicurus. A empresa é alvo de inquérito que apura precariedades trabalhistas.

A apuração é realizada pelo MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul). Instaurado em dezembro de 2025, o inquérito chegou a notificar as empresas que comandam o transporte coletivo em Campo Grande. No entanto, os relatos de irregularidades no ambiente de trabalho seguem e aumentam.

Rafael* trabalha diretamente nas linhas do transporte coletivo há um mês. Contudo, os 30 primeiros dias foram suficientes para desestabilizar o funcionário, que agora se vê em “prisão” trabalhista no Consórcio.

Cobranças

O motorista conta que as avarias do ônibus são cobradas diretamente na folha. Além disso, as cobranças seriam acompanhadas de avisos para não pedirem demissão.

“Toda avaria que acontece com o ônibus, inclusive, se o pneu rasga nos buracos, que tá demais nas ruas, nós que temos que pagar”, explicou Rafael* ao Jornal Midiamax.

As situações relatadas à reportagem abalaram o trabalhador. “Só estou há um mês fazendo linhas e já estou com meu psicológico abalado, pois eles dizem que, enquanto a gente não pagar tudo o que devemos, a gente não pode sair da empresa.”

Ademais, recebeu aviso: “Se sairmos, essas contas vão acompanhar a gente”.

Desabafos são frequentes

Rafael* ouve diariamente os colegas relatando os mesmos problemas. “Eu fico lá, ouvindo esses relatos que os outros motoristas contam. Vejo que nós somos tratados com descaso.”

Conforme os relatos, os itens avariados, mesmo que por condições de infraestrutura, são cobrados dos motoristas. Na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Consórcio Guaicurus, houve relato de que acidentes também “caíam” na responsabilidade dos trabalhadores.

“Teve motorista que até chorou implorando para não cobrarem um pneu que estourou por conta de um buraco que passou. Mas eles não têm piedade, não”, lamentou.

consórcio intervenção
Intervenção pode ter como resultado o fim do contrato com o Consórcio Guaicurus. (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Irregularidades já investigadas

As situações narradas por testemunhas, em oitiva da CPI em 11 de junho de 2025, chegaram até o Ministério Público do Trabalho. Assim, em 12 de junho, o MPT-MS instaurou uma notícia de fato.

Logo, em 23 de junho, converteu a notícia de fato em um procedimento preparatório.

Então, o MPT apura seis grandes frentes de irregularidades. São elas:

  • Fraudes nos registros de ponto – trabalhadores que seriam obrigados a fazer horas extras sem o devido registro no sistema de controle de ponto;
  • Não pagamento de horas extras devidamente registradas;
  • Descontos indevidos nos salários;
  • Veículos em condições precárias, impondo riscos à saúde e segurança dos trabalhadores, especificamente a ausência de ergonomia, em conformidade com a Norma Regulamentadora 17, e a exposição a ruídos excessivos;
  • Assédio e perseguição, no sentido de apurar se as empresas do grupo têm a prática reiterada e generalizada de sobrecarregar seus empregados com múltiplas funções, não correspondentes às atribuições dos cargos que ocupam, de modo a configurar assédio moral;
  • Jornadas exaustivas sem intervalo para descanso e alimentação;

Jornadas exaustivas

Muitas horas de trabalho sem descanso também apareceram nos relatos da CPI e se repetem no início deste ano. Rafael* disse que muitas vezes é privado de usar o banheiro.

“Tem dias que fico até cinco horas direto rodando sem poder ir ao banheiro”. Ao Jornal Midiamax, o motorista disse que “trabalha em situação precária”. “Os bancos dos ônibus não se ajustam a maioria, todo dia minha jornada chega a ser 10 horas todos os dias, esse tempo todo fico dirigindo sem nenhum conforto e fora que está fazendo muito calor”, descreveu.

A entrevista foi encerrada logo em seguida, pois o funcionário iria começar o turno. “Entro às 14h e saio meia-noite. O que prometeram para a gente era trabalhar 44 horas semanais. Mas fica aí minha indignação, porque não tenho mais tempo nem para família.”

Punição

Os motoristas estariam sofrendo punições caso atrasem a viagem. Inclusive, teriam os salários condicionados à assiduidade dos horários. Ocorrências adversas também entram na lista de punição. Internamente, chamam a situação vivida como “gancho”.

“Um motorista passou por um quebra-molas à noite; sem querer, passou rápido, porque estava sem pintura e sem sinalização. Como punição, esse motorista sofreu o tal do gancho. Ele vai ficar sem receber por tempo indeterminado.”

As cobranças financeiras aconteceriam presencialmente, sendo que as chamadas para apresentação do orçamento são por mensagem. No entanto, os motoristas não teriam acesso aos documentos de forma digital.

‘Quando quebra, a gente que paga’: motoristas relatam tratamento abusivo pelo Consórcio Guaicurus
(Foto: Fala Povo Midiamax)

Psicológico abalado

Além das precariedades, os funcionários se deparam com imprevistos no trânsito. Assim, relatam falta de apoio psicológico após acidentes ou ocorrências inusitadas.

“Não temos apoio psicológico, pois esses dias um louco se jogou na frente do ônibus e eu quase mato ele atropelado. Fiquei muito abalado, mas a única coisa que me aconteceu foi que me mandaram seguir a linha”, detalhou um motorista.

Mariano* está na empresa há quatro meses e relatou ao Midiamax uma série de impactos negativos na saúde mental desde que assumiu a função no Consórcio. “Desde que eu entrei lá, há quatro meses, que venho sentindo coisas ruins. Pois o estresse é imenso, toda vez que entro no ônibus depois de um incidente, eu não consigo parar de tremer.”

Pânico — é assim que Mariano* descreve os momentos que vive atualmente. “Parece que estou dentro de um pesadelo. Estou muito cansado, tudo é culpa do motorista, mesmo estando certo.”

Por fim, reforçou o relato do colega sobre a falta de apoio especializado. “Jornada de trabalho exaustiva, sem reconhecimento. Tudo é advertência, nenhuma compreensão, nenhum apoio psicológico.”

Consórcio foi intimado

Por uma lista de precariedades trabalhistas, o MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul) abriu inquérito civil contra o Consórcio Guaicurus. Assim, notificou a empresa sobre denúncias de assédio aos trabalhadores, fraudes e diversas outras irregularidades. O transporte coletivo chegou a parar em Campo Grande devido à falta de pagamento da empresa aos funcionários.

Após a instauração do inquérito, o MPT-MS determinou novas providências, como a notificação do Consórcio Guaicurus. Isso porque os documentos apresentados anteriormente estavam vencidos.

Assim, o Ministério pede apresentação, caso existentes, das versões atualizadas do LTCAT (Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho) e do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). “[…] uma vez que os documentos anteriormente juntados aos autos encontram-se com prazo de revisão vencido”, pontuou o órgão.

Midiamax acionou o Consórcio Guaicurus a respeito dos relatos enviados à reportagem. Contudo, não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.

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